Para Heráclito, a Guerra é o estado natural do mundo. As
coisas no mundo não existem, persistem, e essa perseverança é o que as mantém.
Uma vez quebrada essa resistência, a configuração que dá permanência a uma
determinada coisa se esvai e a própria coisa, por assim dizer cansando-se de si
mesma, como que desiste de persistir. Os seres vivos, para persistirem na
existência, oferecem também uma extraordinária resistência, dado o caráter
efêmero, diminuto e precário desses seres diante das forças cósmicas que tanto
tornam possível a vida quanto incessantemente buscam eliminá-la: furacões,
maremotos, terremotos, secas, inundações, pestes, calamidades de todo tipo
ameaçam os viventes – e é pura questão de tempo até que o próximo flagelo se
anuncie.
Entre os homens não é diferente: se o amor e a amizade
são por eles valorizados, isso se deve ao caráter raro dessas manifestações de
afeto e apoio incondicional e desinteressado. O mais das vezes o que se
encontra, graças à ubiqüidade entre nós da luta por poder e por espaço político,
é a pura e simples coerção. Os que cedem a ela são tratados como “amigos”, e os
que se recusam a ceder, se diferenciando dos demais, são considerados
“inimigos”, sendo hostilizados, postos em suspeição moral e, muitas vezes,
aniquilados.
Os grupos humanos, que unem sob a condição de excluir,
tentam atrair outros homens para fortalecer numericamente suas posições. Essa
atração, por via de regra, se dá através de apelos à submissão que os grupos
transmitem (às vezes de modo tácito, às vezes abertamente) àqueles que estão ao
redor. Tais apelos à submissão se dão por mensagens como as seguintes: “Junte-se
a nós e tudo ficará bem”; “Se você não se juntar a nós, as coisas podem se
complicar”; “Quer ser bem tratado, quer receber sorrisos, benesses e tapinhas
nas costas, então se junte a nós”; “Aqueles que estão conosco são bons, puros e
morais, mas aqueles que não estão conosco são maus, impuros, imorais – então se
junte aos bons!”; “Os que divergem de nosso ponto de vista e não engrossam
nossas fileiras são maliciosos, corruptos, anti-sociais – então se junte a nós e
ao bem!”; “Nós estamos do lado de Deus e do bem; se você não está do nosso lado,
é um conspirador criminoso que está contra Deus e o bem” (Como se sabe, Bush
utilizou argumentos fundados nessas últimas afirmações para começar a guerra
contra o Iraque).
As posições majoritárias (as “maiorias”), quando
desprovidas de espírito democrático e liberal, tendem a impor sobre as minorias
culpa pelo fato destas últimas pensarem ou agirem diferentemente, bem como medo
pelas supostas conseqüências de serem “culpadas”.
É aí que as verdadeiras questões morais se impõem. Os
processos de coação são claramente eficientes, mas é evidente também que, graças
a eles, as piores perseguições da história da humanidade tiveram e tem lugar.
Como aquelas que se deram devido ao nazismo na Alemanha, ao comunismo na antiga
União Soviética, como as que ocorreram, ocorrem e ocorrerão graças a todo e
qualquer terrorismo de Estado. Encontramos também tais grupos coercitivos na
sala de aula, no trabalho e na família. Todos esses grupos, internacionais,
nacionais ou locais, pequenos ou grandes, ameaçam a coisa que muitos filósofos
alardearam como o que há de mais valioso no homem: a liberdade de se expressar,
de ser e de acreditar no que bem entender, de gostar disto ou daquilo, de estar
bem consigo mesmo através da expressão da própria natureza. Para tais filósofos,
tal liberdade representa a própria dignidade humana, sem a qual o homem é
reduzido ao mero status de coisa, ficando aquém da própria humanidade.
Justamente dessa
questão trata James B. Stockdale em seu opúsculo intitulado “Coragem sob Fogo:
Testando as doutrinas de Epicteto num laboratório comportamental humano”, que o
grupo de pesquisa Viva Vox traduziu para a nossa língua através de um acordo com
o Instituto Hoover de Stanford, tradução que será lançada ainda no
corrente ano. Stockdale, falando sobre a sua aplicação das doutrinas do filósofo
Epicteto em seus sete anos e meio como prisioneiro de guerra no Vietnã,
desenvolve uma série de estratégias para que as minorias possam prevalecer
moralmente frente ao assédio moral de maiorias que procuram prevalecer por meio
da coerção. Como um homem pode manter a dignidade num meio absolutamente hostil,
onde a todo o momento procura-se coisificá-lo? Essa a questão à qual Stockdale
procura nos dar uma resposta através de um exercício de ética aplicada.
Podemos assim resumir as estratégias que Stockdale
oferece para que se possa manter a liberdade, a individualidade e a dignidade
num ambiente onde se é minoria e onde a maioria é coercitiva:
Em primeiro lugar, não se curvar diante da maioria
coercitiva,pois esse ato de
curvar-se nada fará senão implicar a aceitação da culpa e a revelação do medo de
ser punido por isso. "Não se curvar" inclui não tentar fazer qualquer espécie de
acordo com a maioria coercitiva, pois tal maioria verá nesse acordo tão somente
oportunidade para subjugar e liquidar a minoria, como ocorre, por exemplo, como
resultado dos acordos de paz entre colonizadores e tribos indígenas.
Em segundo lugar, desenvolver a habilidade de ficar
“fora do ar”,isto é, aprender
a manter absoluta reserva nos ambientes de coerção, visto que a socialização aí
só pode se dar com prejuízo moral daquele que é minoria, que se verá
constrangido, ridicularizado, insultado pela maioria coercitiva (como no caso de
pessoas que são alvo de preconceito e aceitam piadinhas ofensivas para ficar de
bem com uma maioria preconceituosa).
Em terceiro lugar, buscar o apoio daqueles com os
quais se compartilham os mesmos princípios e ideais:esse passo é fundamental para
contrabalançar a medida exposta acima, visto que o homem é um ser social e
dificilmente suporta o isolamento por muito tempo. Às vezes, tal apoio deve
ser buscado pelas vias legais ou políticas. É crucial vencer o isolamento de
forma positiva, pois é justamente através desse isolamento que a maioria
coercitiva muitas vezes obtém suas vitórias, fazendo a minoria se render ao seu
ideário pelo simples fato de a minoria não estar suficientemente
articulada.
Stockdale, partindo de sua experiência de vida, nos
ensina, portanto, a resistir a tais situações adversas, e a manter a dignidade e
a individualidade diante de maiorias que querem se impor por meios
constrangedores.